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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Karma

Não dorme à mais de vinte e quatro horas. Enquanto o sol brilhava, foi mais um dia de trabalho. E de noite? Digamos que de noite tratou de assuntos pessoais.
Berto arrasta os pés que suportam o seu corpo curto mas largo em direcção à porta enquanto pensa que numa vida recheada de trabalho nunca fechou o café, nem por um dia. Faz um cálculo mental ao dinheiro e estima que já juntou o suficiente para largar tudo e fazer vida de patrão por outras bandas. Está indeciso entre Brasil e Cuba. Tem tempo para decidir. Por agora, só pensa em dormir.
Abre a porta e sai. A luz vinda do exterior causa-lhe estranheza e um certo brilho na cabeça ausente de cabelo. Com a mão na testa faz uma espécie de pala de modo a fazer sombra nos olhos. São sete da manhã e já se vê um carro ou outro a passar, olha para os dois lados da estrada e não vê qualquer pessoa. Repara que tem a camisa que outrora era branca, coberta de nódoas. Tira as chaves do bolso, fecha a porta, e mentaliza-se que será a última vez que a irá trancar, uma vez que nunca mais voltará a abrir.
- Berto! - alguém lhe berra ao ouvido, Berto deixa cair as chaves, mete a mão no peito e prende a respiração. - Eh caralho! Já aberto a estas horas Bertão? Agora sim, andas a acordar a horas de campeão.
Camisa azul bebé desabotoada com uma manga cava branca por baixo, calças de ganga e botas de biqueira de aço que aparentam ter mais idade que o próprio homem que as calça...Pinto. Pinto sempre foi daquelas pessoas que segue à regra o "faz antes de pensar". O que não deixa de fazer dele um gajo à maneira. Eu arrisco em dizer que, se fosse feito um inquérito em toda a aldeia em que a única questão seria: Dá uma nota de um a dez ao Pinto. Era bem provável que tivesse uma média de nove. Só não teria dez porque a família mora na aldeia. Porque o Pinto também é daquelas pessoas que se fosse efectuado outro inquérito em que a pergunta seria: Gostavas que o Pinto fosse da tua família? A resposta geral seria um "NÃO". Eu costumo dizer que o Pinto é como um gordo: É bom para ter ao lado, uma vez que que existe uma certa tendência a ser intimidatório, mas caso se magoe, não dá muito jeito para levar ao colo.
Berto sabe que não pode dizer a verdade a Pinto já que ia enfrentar uma sessão interminável de perguntas.
- É verdade. - diz Berto.
Decide abrir a porta, prevendo que naquele horário, à partida Pinto ia ser o único cliente e a única coisa que teria que fazer, era despacha-lo rapidamente.
Entram os dois. Pinto senta-se numa das cadeiras giratórias sem costas que estão junto ao balcão e começa a fazer uma espécie de batuque com as mãos na madeira. Encerra a sinfonia com um murro no balcão e uma volta de 360ºgraus com a cadeira. Tira o maço de tabaco do bolso e coloca no banco ao lado.
- Serve aí um café!
Berto como se fosse uma espécie de robô telecomandado executa uma série de movimentos com a chávena do café e a máquina, impossíveis de memorizar.
- Toma lá. - diz Berto, enquanto lhe entrega o café.
Berto dá a volta ao balcão e senta-se numa das várias mesas de refeição. Não move o olhar do chão durante alguns segundos. Derrepente, levanta velozmente a cabeça e diz:
- Olha lá Pinto, posso fazer-te uma pergunta?
- Chuta! - diz Pinto, virado de costas para Berto.
- Brasil ou Cuba?
Pinto gira o assento. Frente a frente com Berto, coça o queixo e olha-o fixamente nos olhos.
- Brasil ou Cuba Pinto? - questiona Berto novamente.
- Brasil. - diz Pinto. Rodopia o banco novamente e quando está de frente para o balcão repara num Jornal. Com o dedo indicador puxa-o lentamente para a sua frente.
- E porquê? Porque não Cuba?
- Nunca gostei de África, Bertozski. - diz Pinto enquanto analisa a capa do Jornal.
Berto reflecte durante algum tempo nos aspectos positivos e negativos de dar uma pequena explicação de geografia. Enquanto isso, Pinto com o olhar penetrante no jornal lê:
- Bumbum gostoso, faço tudo, oral gosto. Boa para ti Bertolucci !
Uma sombra assenta sobre os inúmeros anúncios a prostitutas impressos naquela página. Pinto calcula que é Berto a demonstrar algum interesse por aquelas palavras mágicas. Não olha para trás, mas consegue imaginar a expressão de curiosidade que Berto tem na cara.
- Isto é um assalto.
- Não tenhas dúvidas que é Berto! É um assalto ao meu precioso e talentoso órgão reprodutor!
Pinto sente uma sensação fria, provocada por algum objecto rijo, que lhe é suavemente encostado à nuca. Agarra no maço de tabaco, retira um cigarro e acende.
- Humm... Ok. Um assalto desses.
Dá um bafo e uma nuvem de fumo esvoaça à frente dos seus olhos.

CONTINUA...


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