Já tinha visto aquele filme umas, sei lá, trinta vezes?, mais, foi mais. Cruz falava tão bem inglês como um agricultor de trás-os-montes, no entanto decorara as falas todas. Viu pela primeira vez quando tinha quinze anos e desde esse dia deliciava-se na frente do ecrã pelo menos uma vez por mês. Era uma espécie de ritual. O elixir da vida. Agora tem trinta anos, portanto é fazer as contas. Dog Day Afternoon. A história de Sonny, - protagonizado por Al Pacino - um homosexual que assalta um banco. Se traduzirmos o título para português obtemos algo como "Um dia de cão". A verdade é que quando o Cruz estava a ter um dia de cão, deleitava-se com Al Pacino e libertava-se da mochila de merda que carregava às costas. Era como se tivesse batido uma ao lado de Al Pacino - o seu psicólogo particular. Psicólogo não, era mais um melhor amigo. Certa vez calhou - naquelas conversas pseudo-intelectuais entre amigos - falar-se de soluções para quando um homem está abatido. O que é que de facto faziam quando a vida não corria de feição? Whisky, drogas e casas de putas eram as mais óbvias soluções, e também as mais escolhidas. Cruz respondeu que dormia, o que era mentira, mas se respondesse Dog Day Afternoon o mais certo era alguém lhe perguntar se aquilo era algum ácido ou alguma bebida, portanto manteve os amigos na ignorância com o seu segredo. Cruz tinha sido despedido, estava sem dinheiro, sem família, sem nada a perder. Para se ter uma ligeira noção do balde de merda em que se tinha afundado, já tinha visto o filme cinco vezes em quatro dias. Tinha a sensação de ser amigo de Al Pacino, sentia que o conhecia melhor que ninguém e que lhe podia contar os segredos mais negros. Almoçava com Al Pacino, tomava banho com Al Pacino, dormia com Al Pacino, até cagava com o Al Pacino a ver. Mais estranho que isto, era que Cruz conversava com Al Pacino.
- Cruz.
- Sim?
- Estás na merda amigo.
- Eu sei.
- Sabes o que eu fiz quando estive na merda como tu?
- O quê?
- Assaltei um banco, não te lembras?
- Estás a dizer para eu fazer o mesmo que tu?
- Porque não?
- Deixas-me ser o Sonny?
- Yes i do my friend.
Cruz sorria enquanto comia os cereais com leite. Tudo passava a fazer sentido.
- Cruz?
- Sim.
- Veste uma roupa igual à do Sonny, vais querer ser igual a ele.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Pois é, pois é
Eu sei quando uma coisa é boa quando tenho vontade de repetir. Tipo um gelado de natas.
terça-feira, 22 de junho de 2010
O homem que se vestia de negro
Estava na merda. Eles estavam por todo o lado. Aqueles mutantes, prontos para a matança, e o que é que eu podia fazer? Nada. Absolutamente nada. Eram cerca de vinte e eu só um. Grandes, furiosos, sem transpirarem piedade, com olhos vermelhos que diziam vou-te matar cabrão. Fizeram um círculo à minha volta, eu cerrei os punhos e preparei-me para morrer, mas sem nunca antes foder a boca a três ou quatro. Foram caindo em cima de mim, uns atrás dos outros. Rodopiei no ar e enchi aquelas criaturas de soco e pontapé. Pareciam ser cada vez mais e eu com cada vez menos forças. Fui atingido na cabeça e o meu corpo esgotado caiu no chão como uma pedra. Aproximavam-se prontos para me devorar, eu sentia o cheiro que a cada passo deles ficava mais intenso. Não podia morrer. Ganhei forças, cerrei novamente os punhos contra o chão e levantei-me. Olhei cada um deles nos olhos e disse:
- Este é o momento em que estão a cagar para dentro, e se não estão, deviam. Até porque o que está para vir, é algo que nunca viram antes. Convido-vos a assistir à pior das carnificinas e prometo que irão assistir ao espectáculo mais implacável de sempre. - eu conseguia cheirar o medo. - Agora estão a questionar-se. Quem sou eu ? Uma coisa podem ter a certeza, não sou um merdas que se deixa ser pisado e cuspido. - atirei a capa para trás das costas. - Sou o Batman, e não são uns conas como vocês que me vão pisar.
- Este é o momento em que estão a cagar para dentro, e se não estão, deviam. Até porque o que está para vir, é algo que nunca viram antes. Convido-vos a assistir à pior das carnificinas e prometo que irão assistir ao espectáculo mais implacável de sempre. - eu conseguia cheirar o medo. - Agora estão a questionar-se. Quem sou eu ? Uma coisa podem ter a certeza, não sou um merdas que se deixa ser pisado e cuspido. - atirei a capa para trás das costas. - Sou o Batman, e não são uns conas como vocês que me vão pisar.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O dia em que Jonas saiu de casa
Aconteceu-me isto uma vez e nunca mais voltou a acontecer.
É muito raro sair de casa, só mesmo para o necessário, como daquela vez em que houve um incêndio na casa de um vizinho. Mas desta vez foi diferente, estava curioso pelo simples facto de que o cheiro do exterior mudara, o som não era o mesmo e até o brilho do sol parecia diferente como se tivesse ficado sem forças a meio do caminho entre o céu e a terra. Esperei dias para que tudo voltasse ao normal. Nada mudou. Foi então que esperei semanas e depois meses. Os meses passavam como dias e os anos contavam-se com as duas mãos. Nada de nada.
O meu nome é Jonas. Este foi o segundo dia da minha vida em que saí de casa.
Abri a porta. Ainda estava tranquilo uma vez que não tinha nenhum dos pés no exterior e a porta ainda não se fechara nas minhas costas. Estava tudo turvo, tirei os óculos do bolso da camisa e coloquei-os. Dei um passo. Só um. Fechei os olhos e dei o segundo passo ao mesmo tempo que a porta se fechava lentamente atrás de mim fazendo um ruído inquietante. Confirmei se tinha as chaves no bolso de trás e a cópia num dos bolsos da frente. Abri os olhos e comecei a andar.
As pessoas não eram as mesmas. Não havia crianças. Haviam crianças que queriam ser adultos e eram tão boas nisso que não dava para notar a diferença. Ou eram adultos que queriam ser crianças? Não interessa. Conseguia ver o lixo nas ruas e sentir a imundície na cabeça das pessoas. Ninguém olhava para ninguém. Eram todos culpados, os filhos-da-puta! Era aquele lixo. O cheiro era dali! O som era cem vezes pior do que o que ouvira na minha casa. Aqueles cabrões não se calavam. O sol não brilhava como antes para impedir que a gente da rua visse na merda que se tornaram. Confirmei se tinha as chaves no bolso de trás e a cópia num dos bolsos da frente, voltei para casa e prometi para mim próprio uma coisa. Nunca mais venho à rua.
É muito raro sair de casa, só mesmo para o necessário, como daquela vez em que houve um incêndio na casa de um vizinho. Mas desta vez foi diferente, estava curioso pelo simples facto de que o cheiro do exterior mudara, o som não era o mesmo e até o brilho do sol parecia diferente como se tivesse ficado sem forças a meio do caminho entre o céu e a terra. Esperei dias para que tudo voltasse ao normal. Nada mudou. Foi então que esperei semanas e depois meses. Os meses passavam como dias e os anos contavam-se com as duas mãos. Nada de nada.
O meu nome é Jonas. Este foi o segundo dia da minha vida em que saí de casa.
Abri a porta. Ainda estava tranquilo uma vez que não tinha nenhum dos pés no exterior e a porta ainda não se fechara nas minhas costas. Estava tudo turvo, tirei os óculos do bolso da camisa e coloquei-os. Dei um passo. Só um. Fechei os olhos e dei o segundo passo ao mesmo tempo que a porta se fechava lentamente atrás de mim fazendo um ruído inquietante. Confirmei se tinha as chaves no bolso de trás e a cópia num dos bolsos da frente. Abri os olhos e comecei a andar.
As pessoas não eram as mesmas. Não havia crianças. Haviam crianças que queriam ser adultos e eram tão boas nisso que não dava para notar a diferença. Ou eram adultos que queriam ser crianças? Não interessa. Conseguia ver o lixo nas ruas e sentir a imundície na cabeça das pessoas. Ninguém olhava para ninguém. Eram todos culpados, os filhos-da-puta! Era aquele lixo. O cheiro era dali! O som era cem vezes pior do que o que ouvira na minha casa. Aqueles cabrões não se calavam. O sol não brilhava como antes para impedir que a gente da rua visse na merda que se tornaram. Confirmei se tinha as chaves no bolso de trás e a cópia num dos bolsos da frente, voltei para casa e prometi para mim próprio uma coisa. Nunca mais venho à rua.
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