Aconteceu-me isto uma vez e nunca mais voltou a acontecer.
É muito raro sair de casa, só mesmo para o necessário, como daquela vez em que houve um incêndio na casa de um vizinho. Mas desta vez foi diferente, estava curioso pelo simples facto de que o cheiro do exterior mudara, o som não era o mesmo e até o brilho do sol parecia diferente como se tivesse ficado sem forças a meio do caminho entre o céu e a terra. Esperei dias para que tudo voltasse ao normal. Nada mudou. Foi então que esperei semanas e depois meses. Os meses passavam como dias e os anos contavam-se com as duas mãos. Nada de nada.
O meu nome é Jonas. Este foi o segundo dia da minha vida em que saí de casa.
Abri a porta. Ainda estava tranquilo uma vez que não tinha nenhum dos pés no exterior e a porta ainda não se fechara nas minhas costas. Estava tudo turvo, tirei os óculos do bolso da camisa e coloquei-os. Dei um passo. Só um. Fechei os olhos e dei o segundo passo ao mesmo tempo que a porta se fechava lentamente atrás de mim fazendo um ruído inquietante. Confirmei se tinha as chaves no bolso de trás e a cópia num dos bolsos da frente. Abri os olhos e comecei a andar.
As pessoas não eram as mesmas. Não havia crianças. Haviam crianças que queriam ser adultos e eram tão boas nisso que não dava para notar a diferença. Ou eram adultos que queriam ser crianças? Não interessa. Conseguia ver o lixo nas ruas e sentir a imundície na cabeça das pessoas. Ninguém olhava para ninguém. Eram todos culpados, os filhos-da-puta! Era aquele lixo. O cheiro era dali! O som era cem vezes pior do que o que ouvira na minha casa. Aqueles cabrões não se calavam. O sol não brilhava como antes para impedir que a gente da rua visse na merda que se tornaram. Confirmei se tinha as chaves no bolso de trás e a cópia num dos bolsos da frente, voltei para casa e prometi para mim próprio uma coisa. Nunca mais venho à rua.
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