Visitas

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dog Day Afternoon

Já tinha visto aquele filme umas, sei lá, trinta vezes?, mais, foi mais. Cruz falava tão bem inglês como um agricultor de trás-os-montes, no entanto decorara as falas todas. Viu pela primeira vez quando tinha quinze anos e desde esse dia deliciava-se na frente do ecrã pelo menos uma vez por mês. Era uma espécie de ritual. O elixir da vida. Agora tem trinta anos, portanto é fazer as contas. Dog Day Afternoon. A história de Sonny, - protagonizado por Al Pacino - um homosexual que assalta um banco. Se traduzirmos o título para português obtemos algo como "Um dia de cão". A verdade é que quando o Cruz estava a ter um dia de cão, deleitava-se com Al Pacino e libertava-se da mochila de merda que carregava às costas. Era como se tivesse batido uma ao lado de Al Pacino - o seu psicólogo particular. Psicólogo não, era mais um melhor amigo. Certa vez calhou - naquelas conversas pseudo-intelectuais entre amigos - falar-se de soluções para quando um homem está abatido. O que é que de facto faziam quando a vida não corria de feição? Whisky, drogas e casas de putas eram as mais óbvias soluções, e também as mais escolhidas. Cruz respondeu que dormia, o que era mentira, mas se respondesse Dog Day Afternoon o mais certo era alguém lhe perguntar se aquilo era algum ácido ou alguma bebida, portanto manteve os amigos na ignorância com o seu segredo. Cruz tinha sido despedido, estava sem dinheiro, sem família, sem nada a perder. Para se ter uma ligeira noção do balde de merda em que se tinha afundado, já tinha visto o filme cinco vezes em quatro dias. Tinha a sensação de ser amigo de Al Pacino, sentia que o conhecia melhor que ninguém e que lhe podia contar os segredos mais negros. Almoçava com Al Pacino, tomava banho com Al Pacino, dormia com Al Pacino, até cagava com o Al Pacino a ver. Mais estranho que isto, era que Cruz conversava com Al Pacino.
- Cruz.
- Sim?
- Estás na merda amigo.
- Eu sei.
- Sabes o que eu fiz quando estive na merda como tu?
- O quê?
- Assaltei um banco, não te lembras?
- Estás a dizer para eu fazer o mesmo que tu?
- Porque não?
- Deixas-me ser o Sonny?
- Yes i do my friend.
Cruz sorria enquanto comia os cereais com leite. Tudo passava a fazer sentido.
- Cruz?
- Sim.
- Veste uma roupa igual à do Sonny, vais querer ser igual a ele.

Sem comentários:

Enviar um comentário