5 horas antes...
- Por tudo o que te dei e pela retribuição que me deste, mereces isto. - diz Berto, de lágrimas nos olhos mas decidido.
Berto tem um anjo num ombro e um diabo no outro. Para ele só existe um desfecho...a morte. Mas esse tal de anjo diz a Berto para atirar tudo o que aconteceu para trás das costas... Afinal, é a mãe dos seus filhos que está ajoelhada à sua frente a implorar que lhe poupe a vida. Berto, de machado em punho, toma uma decisão... E a única coisa que atira para trás das costas, são os conselhos de um anjo.
Presente...
Pinto olha para o corpo e para Berto sucessivas vezes. Tenta entender o que se está ali a passar, mas não consegue.
- Berto! Ouviste? O que é isto? Que merda se está a passar aqui? - grita Pinto.
Berto começa a chorar.
- Achas que eu queria fazer isso à mãe dos meus filhos, Pinto? Não sei o que me deu!
Pinto abre os olhos como se tivesse visto um fantasma ou uma mulher nua. Não acredita no que acabou de ouvir. Examina o rosto do cadáver e confirma as palavras de Berto.
- Fodasse Berto! Mais valia estares calado! Eu nem tinha reparado que era ela!
Pinto, desesperado, coloca as mãos na cabeça ensanguentada e num passo acelerado percorre o café de uma ponta a outra várias vezes, enquanto fala para si próprio:
- Fodasse... Não é possível... O que é isto? Mas afinal o que é que é isto?
- É o fim Pinto... É o fim. - diz Berto.
Pinto, num passo apressado e nervoso, vai em direcção a um pequeno frigorifico que Berto tem atrás do balcão. Tira uma garrafa de cerveja, abre e sem tirar os lábios do gargalo, bebe metade. Vai junto a Berto e coloca a cerveja em cima da mesa.
- Bebe. - diz Pinto. E Berto obedece.
Pinto decide ligar a televisão para desviar a mente daquele lugar sinistro que faz lembrar uma casa dos horrores. Arrasta o corpo imóvel de Sousa para junto da arca. Volta novamente para o lugar e concentra-se apenas no ecrã. Percorre os quatro canais e todos transmitem a mesma coisa: Repórteres num lugar em chamas e em letras de rodapé passa a mensagem "Tragédia. Fábrica de móveis da margem sul arde. Não há registo de sobreviventes".
Não é preciso Pinto ler novamente as letras que passam em rodapé ou examinar com mais detalhe as imagens. Ele sabe que aquele sítio que está a passar na televisão é o local onde devia estar à cerca de 45 minutos atrás. É o único momento que Pinto consegue encontrar algum sentido naquela manhã. Junta as peças e analisa o puzzle. Se Berto não tivesse tirado a vida à mulher, não estaria no café às horas que estava. Se não estivesse no café, Pinto não teria entrado. Se Pinto não tivesse entrado, um assaltante também não. Se isto não tivesse acontecido e Pinto tivesse ido trabalhar... Pode-se dizer que era bem provável que estivesse morto e bem morto.
Berto levanta-se, dirige-se até Pinto e coloca a garrafa de cerveja - já sem nada - à sua frente. Vai em direcção à arca onde está o corpo da esposa dentro e o corpo de Sousa no chão. Vira o corpo de Sousa de barriga para baixo e retira a pistola que estava presa nas calças. Pinto não desvia o olhar do ecrã enquanto agarra na garrafa de cerveja e leva à boca. Quando não sente nada a passar na garganta desvia o olhar da televisão e verifica que de facto a garrafa está vazia. Mas Pinto repara em outra coisa também. Na condensação da garrafa, está escrito "Cuba". Ouve-se um tiro. A garrafa desliza nos dedos de Pinto e desfaz-se. Pedaços de vidro embatem no chão ao mesmo tempo que o corpo de Berto.
- - - - - - - - - FIM - - - - - - - - - - -
Boa história, bem construída, escrita e com pormenores muito bem descritos, parabéns!
ResponderEliminaresta historia está fabulosa, ja a li 2x e voltava a faze-lo! :)
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