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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O último dia da vida de Tommy Aldridge

Na altura, Tommy Aldridge tinha 14 anos. Os seus pais eram irlandeses, e como tal, Tommy herdara toda a aparência típica da grande parte do povo das sardas e do cabelo ruivo. Porém, Tommy nunca visitara a terra mãe, e como tantos outros descendentes de irlandeses a morar nos Estados Unidos, a sua terra mãe era Boston. Sabia apontar a Irlanda no mapa e sabia as cores da bandeira; bastava para se sentir Irlandês.
Alicia tinha chegado à cidade com a família. Vinham de Cuba em busca do tão procurado sonho americano. A mãe arranjara trabalho como empregada doméstica, o pai ganhava em um mês nas obras o que não ganhava em Cuba durante um ano inteiro, e a menina Alicia foi parar à turma de Aldridge. Tommy ficara doido por Alicia, mas não desde o primeiro dia. No dia em que a menina foi apresentada à turma, Tommy desenhava bigodes que nem um louco em tudo o que era boneco no livro de história. Nos dois dias depois, fingiu uma má disposição. Foi então no quarto dia que Tommy reparou nela. A menina tinha cabelos negros e longos, a pele era morena tal como as mulheres das novelas que o pai de Aldridge via quando a mãe não estava por perto. Os seus olhos eram meio rasgados, mas não eram olhos de chinês, eram antes os olhos de Cleópra...Cleótra...Nunca conseguia pronunciar o nome. Alicia tinha os olhos da página 138, a única pessoa do livro de história que Tommy não fizera um dos seus famosos bigodes. Quando estava nas aulas, olhava para Alicia, quando estava em casa tirava o livro de história da mala e folheava até à página 138, onde se fixava até à hora da refeição. Cleópra... Nunca conseguia pronunciar o nome. Era bem mais fácil dizer Alicia; a menina cubana que parecia a rainha do Egipto.

E ali estava ele, 20 anos depois.
Deitado de costas no asfalto, apenas via o céu. As pessoas chegavam, e a pouco e pouco preenchiam o azul até restar somente um pontinho no centro de tantos rostos curiosos. Tommy Aldridge tornava-se num circo, atraindo um povo metediço que estava ali para contemplar a morte, o número mais audaz de todos. No centro da assistência, Tommy meditava sobre o quão ridículo era morrer atropelado.
Pensava que só os velhos é que morriam assim.
Sempre achou que teria alguma espécie de aviso antes de morrer, um sinal, um pressentimento qualquer.
Estou na merda.
Não havia nada a fazer.
Fechou os olhos e lembrou-se de Alicia. A mãe dos seus filhos. E foi aí que desejou que, fosse quem fosse que estivesse encarregue daquele negócio de tirar vidas, pensasse duas vezes e dissesse: Este cabrão merece uma segunda oportunidade.

Continua...

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