Guardou a harmónica no bolso do casaco e poisou a garrafa no chão. Entretanto, Tommy continuava ajoelhado, sem se mexer num misto de repouso e espanto, como se o que acabara de ver, mas sobretudo ouvir, tivesse deixado num profundo estado de hipnose. O silêncio absoluto que tomava conta da sala foi interrompido por um daqueles ruídos metálicos que, em forma de arrepio, percorre a espinha. O homem de negro arrastava uma tampa semelhante às do esgoto, enquanto Tommy observava sem exprimir qualquer sinal de estar incomodado com aquela algazarra importuna. Colocou a tampa junto ao poço de luz com a clara intenção de o fechar.
- A tampa está ao contrário - disse Tommy, acordando do estado de homem estátua em que se encontrava.
- Hum ?
- A tampa - repetiu, apontando para a tampa. - Está ao contrário.
- Depende.
- Depende ?
- Sim, depende do ponto de vista.
- Do nosso está - disse Tommy.
- Não. Não está.
O buraco é fechado e a escuridão invade a sala.
Quem és ? - gritou Tommy para o vazio.
Ninguém responde. Ouviu-se passos e Tommy levantou-se, sem conseguir desvendar de onde vinham. Acendeu-se uma vela e logo a seguir outra. Aquele homem estranho percorria a sala, acendendo uma a uma, velas que Tommy não reparou estarem ali antes.
- Isso não é importante, o que interessa é o motivo da tua presença aqui. Lembras-te ?
- Não. Não consigo - disse Tommy esforçando mais uma vez a memória sem obter resultados enquanto acompanhava com o olhar aquele homem que caminhava à sua volta oferecendo luz à escuridão.
- Por favor Aldridge, morres atropelado e tens vergonha de contar ?
De repente pequenos extractos de imagens foram ocupando a memória de Tommy, a pouco e pouco tudo ficava mais organizado, e Tommy...lembrava-se de tudo.
- Lembro-me de tudo.
À sua volta haviam várias velas acesas, umas em cadeiras, outras em gargalos de garrafas de vidro, e outras simplesmente no chão. Um cheiro a cera queimada libertava-se no ar e isso, por alguma razão, acalmava Tommy.
O homem caminhou até ele, puxou uma cadeira e disse a Tommy para se sentar, e logo de seguida fez a mesma coisa, soltando um suspiro de cansaço enquanto se sentava. Tommy observou-o e reparou num relógio de ouro que tinha no pulso. Mas o relógio não tinha ponteiros e Tommy desconfiado de alguma partida da sua visão, susteve a respiração esperando ouvir o tic tac dos ponteiros, mas nada.
- Tenho uma proposta para ti Tommy - disse o homem de negro, acendendo um cigarro de seguida.
- Proposta ?
- Eu sei quem é a Alicia e também sei o quanto queres voltar para o lado dela. E eu, por tua sorte, consigo fazer com que isso aconteça. Só que odeio estar sozinho e neste momento és tu quem me faz companhia.
- Então e...
- Mas! - interrompeu o homem - Mas dá para dar a volta. É que por acaso também sei quem te matou e não me parece má companhia, mas sozinho não o consigo trazer - disse, cruzando as pernas de seguida enquanto dava um bafo no cigarro.
- Eu consigo ? - questionou Tommy, atento como uma criança a ouvir uma história de piratas e feiticeiros.
O homem de negro levantou-se e agarrou num ferro que estava ali perto. Prendeu o ferro numa abertura da tampa que agora fechava o buraco de luz, e com um movimento semelhante ao de uma alavanca, abriu novamente. O túnel de luz invadiu a sala.
Tommy levantou-se e andando lentamente o homem de negro veio para o seu lado. Chegou-se ao ouvido de Tommy e sussurrou:
- Tens que o matar Tommy. Vais voltar, mas tens que o matar - e empurrou Tommy para o poço de luz.
Esforçava-se para abrir os olhos, mas não conseguia. Tommy ouvia o típico zumbido de máquinas de hospital, e depressa percebeu onde estava. Estava vivo, e melhor que isso, conseguia sentir o cheiro de Alicia ao seu lado.
- Ali.. Alicia... - gemeu, tropeçando entre sílabas.
- Tommy! Estás bem! - disse Alicia, abraçando Tommy de seguida.
Tommy sentia a cara dela encostada à sua, queria beija-la mas não conseguia. Com o toque do nariz procurou o ouvido de Alicia, e tal como o homem de negro, Tommy sussurrou ao ouvido:
- Vendi a minha alma ao diabo.
Fim.
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