Ela:
Hoje está feliz. Sente-se mais livre, mais desinibida, mais mulher e mais sensual. Sente-se alta. Está a usar pela primeira vez as próteses das pernas.
Passaram cerca de dois anos desde o trágico acidente. Adormeceu ao volante e chocou com um camião que transportava seringas anteriormente usadas por tóxico-dependentes. Uma tragédia que tirou, mas também soube dar. Foi privada de ser uma pessoa normal, mas aprendeu a aproveitar cada minuto da vida quando foi-lhe dito que o seu corpo era agora o lar de nove doenças sexualmente transmissíveis. Gonorreia, Sífilis, Sida, Hepatite B, Herpes genital, Vulvovaginite, Candidíase, Tricomoníase e Pediculose púbica, - sendo esta última mais conhecida como “chatos” - eram agora as suas hóspedes.
Sofreu também queimaduras que lhe colocaram um fim no crescimento do cabelo. Mas isso não era o mais grave porque curar herpes genital não é tão fácil como apanhar cabelo do chão em uma cabeleireira e fazer uma peruca.
Estava com diarreia desde o arroz de marisco que comeu no jantar de festejo da sua nova vida. Foi pedir uma água com gás. Viu um homem que não parava de olhar para ela. Pensou que talvez fosse mexicano ou chileno devido a características físicas da América do Sul que aquele homem possuía. Ele foi lá fora e ela também queria ir. Queria mas não podia. Tinha acabado de defecar. Esperou que ele voltasse. Entrou novamente de uma maneira que parecia ter saído de uma novela mexicana.
- É de certeza mexicano ou chileno. - pensou ela.
Ele solta uma gargalhada e ela sorri. O cheiro começa a estender-se num raio cada vez mais alargado. Ela espera que ele deixe de olhar. Aproveitou o deslize e foi à casa de banho.
Ele procurava-a e ela reparou. Confiante e limpa, tocou-lhe no ombro e disse:
- Vamos?
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